O Salão do Automóvel de Frankfurt — oficialmente conhecido como Internationale Automobil-Ausstellung, ou IAA — foi um dos eventos automotivos mais prestigiados do mundo. Realizado em Frankfurt am Main desde 1951, serviu como um palco global onde as maiores inovações da indústria automobilística foram reveladas, debatidas e celebradas. De tecnologias revolucionárias de segurança a carros esportivos lendários, o IAA moldou a direção do mundo automotivo por décadas. Em 2021, no entanto, o salão deixou Frankfurt definitivamente, mudando-se para Munique. Este artigo analisa como o Salão do Automóvel de Frankfurt surgiu, por que foi importante e o que acabou levando à sua mudança.
Como o Salão do Automóvel de Frankfurt Começou
A primeira exposição automobilística na Europa ocorreu em 1897, mas só em 1951 Frankfurt am Main se tornou a sede oficial do IAA. Aquele salão inaugural — que apresentou o primeiro caminhão com motor turbo diesel — atraiu 570.000 visitantes, sinalizando o quanto o público estava ávido por inovação automotiva.
Ao longo das décadas seguintes, o salão se transformou em um fenômeno verdadeiramente internacional. Os principais marcos de seus primeiros anos incluem:
- 1961: O público atingiu 950.000 visitantes, consolidando o status de Frankfurt como o principal evento automotivo do mundo.
- 1965: Fabricantes de automóveis japoneses participaram do IAA pela primeira vez, abrindo a porta para marcas asiáticas no mercado europeu.
- 1989: O último salão combinado para carros e caminhões atraiu quase 2.000 empresas expositoras, com 252.000 metros quadrados de espaço de exposição e 1,2 milhão de visitantes.
O Salão do Automóvel de Frankfurt foi organizado sob a gestão da Associação Alemã da Indústria Automotiva (VDA), que moldou a identidade do evento e seu alcance internacional ao longo de sua história.
Ao longo dos anos, Frankfurt se tornou a plataforma de lançamento para alguns dos nomes mais celebrados da história automotiva. Marcas chinesas fizeram suas estreias europeias aqui, fabricantes japoneses e coreanos introduziram seus futuros best-sellers, e até marcas russas — como Lada e a malfadada Marussia — escolheram Frankfurt para anunciar suas ambições ao mundo. Por muitos anos, apenas o Grupo Daimler ocupou vários andares de espaço de exposição com sua linha de carros de passeio.
A Divisão em Salões Separados de Carros e Caminhões
Após décadas hospedando carros de passeio e veículos comerciais sob o mesmo teto, o IAA foi dividido em dois eventos distintos em 1992:
- Anos ímpares: Exposição de carros de passeio em Frankfurt am Main.
- Anos pares: Exposição de veículos comerciais em Hanôver.
Essa reestruturação permitiu que cada segmento recebesse a atenção dedicada que merecia, e o salão de carros de passeio em Frankfurt continuou a prosperar. Permaneceu um lugar onde as tendências automotivas eram definidas, os concorrentes se avaliavam mutuamente, parcerias eram forjadas e os resultados da indústria eram avaliados. O salão tinha uma qualidade quase teatral — os fabricantes guardavam obsessivamente seus próximos modelos, fotógrafos tentavam todos os truques para capturar fotos espião, e quando o momento da revelação finalmente chegava, a emoção era elétrica.
Os números falam por si:
- 2009: Mais de 780 empresas expuseram, apresentando 206 carros novos.
- 2011: 900 empresas participaram, com mais de 850.000 visitantes ao longo de dez dias.
- 2017: 994 empresas de 39 países, 228 estreias mundiais, 64 estreias europeias, mais de 810.000 visitantes e um bilhão de menções nas redes sociais.
Carros Icônicos Que Tiveram Sua Estreia Mundial em Frankfurt
Alguns dos carros mais venerados da história fizeram suas estreias públicas no Salão do Automóvel de Frankfurt. Modelos lendários incluindo o Volkswagen Golf, Porsche 911, Plymouth Barracuda, Jaguar XK 120, Ford Mustang e Jeep Cherokee apareceram pela primeira vez no palco do IAA. Abaixo estão vinte das estreias mais significativas de Frankfurt e as histórias por trás delas.
1961 – BMW Neue Klasse: Este modelo compacto estabeleceu a base genética para todos os carros BMW que se seguiram. Atraiu motoristas comuns e entusiastas de corrida igualmente, deu origem à marca de ajuste Alpina e tornou-se o ancestral direto tanto da Série 3 quanto da Série 5 da BMW.
1979 – Mercedes-Benz Classe S (W126): Conhecido como o “carro para xeques”, a Classe S W126 foi o carro tecnologicamente mais avançado de sua era, introduzindo recursos que se tornariam padrões da indústria:
- Sistema de Freios Antiblocante (ABS)
- Airbags do motorista e passageiro
- Assentos eletricamente ajustáveis com memória
Ao longo dos 12 anos seguintes, 818.036 unidades foram produzidas — um recorde que nunca foi batido por qualquer geração subsequente da Classe S.

1979 – Lancia Delta: Poucos visitantes no salão de 1979 poderiam ter previsto que este modesto hatchback projetado por Giorgetto Giugiaro se tornaria um dos maiores de todos os tempos nos ralis. A jornada do Delta no automobilismo incluiu:
- Título de Carro Europeu do Ano em 1980
- O Delta S4, o carro Grupo B mais avançado de sua era, combinando turbocompressor e supercompressor
- Seis vitórias consecutivas no Campeonato Mundial de Ralis de Fabricantes com o Delta Integrale

1983 – Protótipo Porsche Gruppe B (959): Um dos supercarros mais brilhantes dos anos 1980 começou seu caminho para o status de ícone quando o protótipo Gruppe B estreou em Frankfurt. Dois anos depois, no mesmo salão, uma versão pré-produção do 959 foi revelada ao público.

1995 – Lotus Elise: O Salão do Automóvel de Frankfurt deu ao mundo o Lotus Elise, o modelo que lançou a Lotus em sua era moderna. Notavelmente, o Elise continuou a ser produzido com mudanças mínimas por décadas, mantendo uma demanda consistentemente forte ao longo de sua vida de produção.

1997 – Land Rover Freelander: Antes do Freelander, todo Land Rover era um off-road com chassis separado, motores grandes e sistemas complexos de tração nas quatro rodas. O Freelander mudou tudo — tornou a marca acessível a um público mais jovem e atraiu investimento do Grupo BMW, que adquiriu a Land Rover e modernizou a fábrica de Solihull, dando à marca um novo fôlego.

1999 – Peugeot 607 e BMW M3 E46: O salão de 1999 foi um ano forte para desempenho e prestígio. O Peugeot 607 foi o último verdadeiro carro-chefe que a marca francesa produziu — seu conceito esportivo, o 607 Pescarolo, desenvolveu 400 cv e uma velocidade máxima de 290 km/h. Ao lado dele, o BMW M3 E46 estreou, um carro que permanece favorito para track days e eventos de drift até hoje. Dois anos depois, o conceito M3 CSL — amplamente considerado um dos maiores carros M já feitos — foi apresentado no mesmo salão.

2001 e 2003 – Bugatti, Lamborghini e Aston Martin: O início dos anos 2000 trouxe algumas estreias extraordinárias em Frankfurt. Em 2001, tanto o Bugatti Veyron Concept quanto o Lamborghini Murciélago foram revelados. Em 2003, o Audi Le Mans Quattro e o Aston Martin DB9 ocuparam o centro do palco — o DB9 provou ser tão bem-sucedido e amado que permaneceu em produção até 2016.
2009 – Ferrari 458 Italia e Saab 9-5: O salão de 2009 ofereceu um contraste marcante entre sucesso e tragédia. A Ferrari 458 Italia cativou o público com seu design ousado e tecnologia de ponta, incluindo:
- Um diferencial autoblocante eletrônico
- Sistemas avançados de controle de tração
- Um motor de injeção direta de alta rotação (até 9.000 rpm)
- Uma transmissão semi-automática de dupla embreagem
O DNA da 458 Italia vive hoje no F8 Tributo. Enquanto isso, o Saab 9-5 fez sua estreia — o último modelo novo que a problemática marca sueca produziria. Chegou tarde demais para salvar a empresa, que acabou sendo fechada e parcialmente vendida para compradores chineses.

2011 – Volkswagen Up!: Primeiro mostrado como conceito em Frankfurt em 2007 e depois em forma de produção no mesmo salão em 2011, o Volkswagen Up! tornou-se enormemente popular na Europa Ocidental — prova de que ainda existe um forte mercado para carros urbanos pequenos e sem frescuras.

2013 – Porsche 918 Spyder e BMW i8: O 918 Spyder foi um hipercarro híbrido histórico — tração nas quatro rodas, mais rápido que os rivais McLaren e Ferrari na maioria dos circuitos mundiais, e mais acessível que ambos. O BMW i8 teve um caminho mais difícil: seu alto preço e números modestos de desempenho para um carro esportivo mantiveram a demanda baixa, e o modelo acabou sendo descontinuado.
2017 – Mercedes-AMG Project One: O AMG Project One fez história como o primeiro carro de rua a receber um trem de força híbrido derivado diretamente de um carro de corrida real de Fórmula 1 — um marco que nenhum outro fabricante, incluindo Ferrari, Renault ou Honda, havia alcançado na época.

2019 – Porsche Taycan e Honda e: O Salão do Automóvel de Frankfurt final fechou com dois veículos elétricos muito aguardados. O Porsche Taycan cresceu do conceito Mission E, que havia sido apresentado em Frankfurt em 2015. O Honda e, com seu encantador design inspirado no retrô, apontou para um futuro onde os carros elétricos poderiam conquistar até os motoristas mais relutantes.

Por Que o Salão do Automóvel de Frankfurt Declinou
O IAA 2019 em Frankfurt marcou o fim de uma era — e os sinais de alerta vinham se acumulando há anos. Um número crescente de grandes montadoras optou por pular o salão inteiramente, preferindo revelações online e eventos de lançamento independentes. As marcas que pularam Frankfurt em 2019 incluíram:
- Nissan
- Aston Martin
- Ferrari
- Cadillac e Chevrolet
- Chrysler
- Citroën
- Infiniti
- Mazda
- Mitsubishi
- Rolls-Royce
- Subaru e Suzuki
- Toyota
- Volvo
No total, apenas 18 fabricantes de automóveis expuseram no salão de 2019, com três deles sendo marcas chinesas fazendo aparições europeias. Simultaneamente, o contrato de longa data entre a VDA e o centro de exposições Messe Frankfurt expirou, removendo a base institucional que havia sustentado o evento por décadas.
Várias mudanças estruturais no mundo automotivo contribuíram para esse declínio:
- Custos crescentes: A participação em salões do automóvel havia se tornado um buraco negro financeiro para os fabricantes — sem grandes lançamentos de novos modelos para justificar a despesa, o retorno sobre o investimento simplesmente não estava lá.
- Mudança nos hábitos dos consumidores: As gerações mais jovens estão cada vez mais escolhendo scooters elétricas, bicicletas, serviços de compartilhamento de carros e modelos de assinatura em vez de propriedade de carros.
- Revelações digitais em primeiro lugar: Estreias online e eventos de lançamento de marca própria oferecem maior controle e alcance mais amplo a uma fração do custo.
- Mudança de foco da indústria: As montadoras começaram a priorizar “conceitos de mobilidade” — serviços conectados, tecnologia autônoma e soluções de transporte urbano — em vez de vitrines de carros tradicionais.
Mesmo assim, o salão de Frankfurt de 2019 fez um esforço genuíno para evoluir: uma pista de teste off-road ao ar livre foi montada, os visitantes podiam experimentar simuladores de direção e exibições de tecnologia interativa, e passeios guiados no estilo de museu foram oferecidos por todos os salões de exposição. O evento também confirmou várias tendências-chave moldando o futuro da indústria:
- A eletrificação generalizada das frotas de veículos europeus
- Uma progressão constante em direção a carros autônomos e autodirigidos
- A digitalização total da experiência dentro do carro
- Escolhas de design ousadas e não convencionais visando atrair compradores mais jovens
O Legado do Salão do Automóvel de Frankfurt
Por quase sete décadas, o IAA Frankfurt foi muito mais do que uma feira comercial — foi onde o futuro do carro foi escrito. Modelos que mudaram o mundo foram revelados em seus palcos, tendências foram definidas em seus salões de exposição, e a paixão de milhões de entusiastas de carros foi canalizada para um evento extraordinário, ano após ano. Mesmo quando o salão avança sob um novo nome e em uma nova cidade, o legado do Salão do Automóvel de Frankfurt permanece firmemente escrito na história do automóvel.
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Publicado Outubro 01, 2020 • 10m de leitura